Relações Bilaterais Brasil-Colômbia
July 23, 2021
Uma língua como herança
July 30, 2021

Experiências da fronteira

Handshake Brazil and Colombia on a white background

20 de julho, dia da Independência da Colômbia, o IBRACO não podia deixar de prestar homenagem ao país onde nasceu esta instituição que é símbolo da relação de amizade entre o Brasil e a Colômbia.

Apesar de compartilharem uma fronteira de mais de 1500 km2, a verdade é que o estreitamento das relações entre ambos os países é relativamente recente, tanto por causa da realidade geográfica (uma imensa Amazônia que, em certo sentido, constitui uma barreira natural) como pelas circunstâncias históricas. 

Mesmo assim, na região central da Colômbia, podemos dizer que o epicentro do intercâmbio cultural entre os países acontece aqui no IBRACO. É onde os colombianos podem aprender português, entrar com contato com os brasileiros, experimentar algumas iguarias do Brasil, aprender samba, capoeira, enfim, é um pedacinho do Brasil na Colômbia.

Curiosamente, essa mesma Amazônia que, em certo contexto, nos separa, é o lugar onde o povo brasileiro e o povo colombiano, naturalmente, se unem. É o lugar onde a interação entre brasileiros e colombianos é cotidiana e permeia todos os âmbitos da vida: a comunicação, o comércio, a educação, os hábitos alimentares, a música, tudo.  

Quem já teve a oportunidade de visitar as cidades de Tabatinga (do lado brasileiro) e Letícia (do lado colombiano), já vivenciou o tanto que essa fronteira é amável. Colombianos ou brasileiros vão ou vêm estudar no país vizinho, os leticianos amam queijo prato, calabresa da Aurora ou da Sadia, baré geladinho, e se for para tomar uma cerveja com os amigos que seja Antartica e ali, vamos pôr, na “Scândalos” que o pagode é alegre e o ambiente mais gostoso. Já os brasileiros gostam de vir dançar no “Mosh”, ali na esquina do parque Santander, e na hora de comer os colombianos gostam do “Três fronteiras” (sim, “três” porque o Peru também está presente) e os brasileiros vêm no “Tierras amazónicas”.  É isso mesmo: à diferença do que acontece nos grandes centros urbanos dos dois países, para os quais seus “vizinhos” são quase uns perfeitos desconhecidos, para os moradores das duas cidades gêmeas, o Brasil é ali, e a Colômbia é ali. As famílias nascem e crescem naturalmente misturadas e há quem tenha a sala de visitas na Colômbia e o quintal no Brasil. Literalmente. Não é brincadeira. Tudo acontece sem necessidade de passaportes nem vistos, nem nada. E enquanto o jogo não for Brasil x Colômbia, é certeza que o colombiano torce pelo Brasil na Copa.

Olhando de diversas perspectivas, talvez seja um dos lugares mais interessantes para se morar neste mundo. É realmente incrível não precisar atravessar nada, nem uma ponte, nem um rio, nem um posto da polícia. Se você estiver indo muito rápido, não vai nem reparar nas bandeirinhas marcando a fronteira. É só seguir em frente que quando a moto passar a lombada você já vai ouvir todo mundo cantando em português (ou em espanhol, se você vier de lá pra cá).

Fato é que existem tratados de fronteiras e acordos de cooperação entre os países, mas como o que a população vive no dia-a-dia é uma troca espontânea mediada, o mais das vezes, pelo famigerado portunhol, na prática, essa mesma população que está tão próxima acaba (ou acabava) perdendo a possibilidade de aproveitar os benefícios de sua vizinhança.

Foi nesse contexto que o IBRACO desembarcou na fronteira, com o intuito de possibilitar que os colombianos em contexto de imersão, pudessem organizar e sistematizar seu conhecimento cotidiano do português e atestá-lo oficialmente.

Nasceu assim a iniciativa de criar cursos de português, inicialmente, na Escuela Normal Superior Marceliano Canyes Santacana de Leticia e, junto com isso, o estabelecimento de um posto aplicador do Celpe-Bras na mesma cidade. Além disso, o IBRACO reafirma seu papel de formador de professores de PLE com cursos voltados para os professores que atuam na área lá na fronteira.

A demanda é crescente e os resultados têm um impacto social inegável na região. O fato de jovens e adultos terem acesso aos cursos de português e ao exame oficial de proficiência em português para estrangeiros representa para eles não apenas um papel. Ser portador do Celpe-Bras significa uma ampliação real das oportunidades de estudo e desenvolvimento profissional pois agora, sem ter que arcar com o alto custo de uma viagem de avião de duas horas até o centro do país (é o segundo trajeto aéreo mais longo na Colômbia entre Bogotá e uma capital de departamento. E não existe estrada), as pessoas podem, por exemplo, usufruir o direito de participar do concurso para obter bolsas de estudos dos programas PEC-G ou PEC-PG, ou concorrer e obter vagas de emprego em que o português é requisitado.   

Paralelamente, admiração, carinho, respeito e amizade recíprocos continuam todos os dias! Agora mesmo, acabou de encerrar mais uma edição do “Festival da Confraternidade Amazônica”: https://portaltabatinga.com.br/2021/leticia-co-divulga-programacao-do-festival-da-confraternidade-amazonica/

O evento que acontece desde 1987 na cidade de Leticia, sempre antecipando as comemorações da Independência da Colômbia, é um acontecimento que pretende fortalecer os laços entre os países que compartilham o Amazonas, incluindo, portanto, o Peru e, eventualmente, uma representação do Equador, focando nos saberes e experiências que, apesar das fronteiras, criam uma identidade amazônica.

No âmbito desse festival foi que eu, sendo criança, conheci Pedro Bernal, cantor leticiano que, de forma tão alegre e espontânea, descreve como é ser um colombo-brasileiro: