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Com sabor a queima da floresta

Por: Santiago Ardila Sierra , ex-aluno do IBRACO

No momento de escrever este texto, tenho uma notícia e duas imagens na mente. A notícia, que a cadeia de supermercados Casino — dona dos grupos Éxito e Pão de Açúcar — foi processada na França pelo desmatamento da Amazônia colombiana e brasileira; as imagens, duas fotos do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado: a primeira, o tumulto de gente na mina da Serra Pelada (Pará) tentando sequer achar um grama de ouro para se fazer rica; a outra, o desespero de um bombeiro tentando apagar os incêndios dos campos de petróleo do Kuwait, após da Guerra do Golfo. Penso nisso para visualizar a ambição e a dor que tem gerado a destruição da floresta amazônica.

Uma questão persiste: por que um grupo de supermercados foi processado na França por um assunto tão complexo e cheio de múltiplas causas como a queima das florestas da América do Sul? Nesse país, as empresas devem traçar suas redes de fornecimento para garantir que não estão infringindo as leis que protegem os direitos humanos. E o grupo Casino não tem feito esforços suficientes para justificar a origem de uma grande parte da carne que vendem no Pão de Açúcar.

Figurinha do artista colombiano José María López – Pepón. Curador da mostra de arte “La Amazonia que nos une – IBRACO 2015”

Três matadouros da JBS

A JBS é a maior empresa de produção de carne no mundo. É quase impossível evitar encontrar seus produtos no planeta; seus processos logísticos permitem abastecer de proteínas e couros todo o mercado global. No entanto, seu nome está fortemente ligado ao desmatamento de selvas e reservas indígenas para a criação de gado. Esta história começa com uma investigação da Repórter Brasil: Filé no supermercado, floresta no chão. O problema é específico: 65% dos prédios desmatados na Amazônia brasileira são ocupados por pastos; um fenômeno muito parecido com o caso colombiano.

Após se ver sujeita a tão terríveis violações de direitos humanos, a JBS comprometeu-se, desde 2009, a lutar contra essas práticas, somadas a garantir a proteção dos territórios indígenas e a vigiar o uso de mão de obra escrava — coisa que também não acontece. Além disso, o compromisso, feito há mais de 10 anos, de rastrear a origem dos bois segue sem se cumprir. Entre 2017 e 2019, a JBS se abasteceu diretamente de 327 fazendas paraenses responsáveis de desmatamento ilegal; em outras situações, quando os fornecedores indiretos são embargados pelo desmatamento, os animais são engordados em fazendas legais, mascarando sua origem para poder vendê-los.

Então, nas gôndolas dos supermercados se oferece carne que apresenta custos muito maiores do que foram pagos: tanto em vidas humanas, quanto para o meio ambiente. Daqui em diante começa a responsabilidade do Grupo Casino. Segundo o Centro de Análises de Delitos Climáticos, o Casino comprou carne de três matadouros que se abasteciam de 592 fornecedores responsáveis por 50.000 hectares de Amazônia desmatada — uns 75.000 campos de futebol! Daí que indígenas colombianos e brasileiros, junto a organizações francesas e estadunidenses, processaram o grupo francês.

Na Colômbia, o processo é similar. O grupo Éxito não compartilha informação de rastreabilidade da sua carne e, por sua vez, as entidades governamentais não unificam seus dados para entender qual produção bovina destrói a Amazônia.

Não é só o Casino nem a JBS

Recentes pesquisas de Greenpeace e Global Witness analisaram com lupa esse problema das redes de fornecimento de carne mundial. Por exemplo, a JBS, a Minerva e a Marfrig estão relacionadas com o desmatamento do pantanal brasileiro, a maior rede de pântanos do mundo. Esse ecossistema, localizado nos estados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, é possivelmente um dos reguladores do clima mais importantes de todo o planeta.

O Casino recebe fornecimento destes frigoríficos, mas não só ele. Outras empresas como a Nestlé, a Costco, o KFC, o Subway, a Tesco, o Walmart, o Carrefour e o McDonalds também. Ainda, se suspeita que parte dos couros da BMW, da Kia, da General Motors, da Ford, da Toyota e da Volkswagen vêm do pantanal.

Vemos que o processo do Casino na França é apenas a ponta do iceberg. É urgente que os países que compartilham a Amazônia decidam adotar mecanismos eficazes para protegê-la, não só dentro de suas fronteiras, mas intensificando os compromissos e a cooperação internacionais. Da sua parte, as empresas devem garantir um rastreamento do gado que compram, além de exigir a seus fornecedores garantias para que seja sustentável, e para que haja sanções efetivas para aqueles que descumprem as normas.

Mas esses acordos voluntários sempre são insuficientes. O Norte Global deve aceitar sua participação nos danos que sofrem estes países. Por isso, o processo do Casino é tão pertinente. Se as empresas não aplicarem reformas efetivas nas suas estruturas, terão que encarar os tribunais em seus países de origem. O planeta não pode resistir à perda da Amazônia e esta é uma luta desigual.

Tenho em mente outra imagem agora, outra foto de Salgado (quem dedica seu tempo a reflorestar o Brasil junto ao Instituto Terra): um grupo de indígenas waurás pescando no lago Piyulaga e perdendo-se atrás de uma cortina de nevoeiro. Sua paciência e atenção no que é importante é uma mensagem especial. Sinto esperança e desejo que o resto do planeta possa compreender e apoiar a luta em que esses povos têm se empenhado para proteger os territórios mais sensíveis e sagrados do mundo.

Imagen principal do cartunista brasileiro Jean Galvão – Participante da mostra de arte “La Amazonia que nos une” – IBRACO 2015″